São Paulo,
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Violência doméstica: Entendendo a agressão às mulheres: Por que isso acontece?

 

Caminhando de volta para casa, antes da pandemia, com uma sacola de compras nos braços, escuto atrás de mim uma voz masculina: ”Vai tomar no ‘c…’”.! Em seguida escuto uma voz feminina: ”No rosto, não! No rosto não! Resolvo mudar de calçada para sair do raio de ação do suposto agressor e ao mesmo tempo poder observar melhor e tomar alguma providência se necessário. Um casal de adolescentes, com uniforme escolar, ele “segurando” a garota pelo pescoço com uma “gravata”. Essa violência no trato entre o casal tão jovem é chocante por serem tão jovens… Será que é assim que começa?

Por que a maioria dos agressores são homens?

Através do processo de socialização os homens são treinados para serem fortes e duros – não falar sobre, e muito menos encarar seus sentimentos. As mulheres por sua vez, são encorajadas a demonstrar sua vulnerabilidade, mas tem que controlar sua raiva. Sutilmente a doutrina religiosa reforça a dominação das mulheres pelos homens, enfatizando a superioridade masculina. Não faz muito tempo, algumas leis ainda permitiam ao marido bater na mulher, tratando-as como objetos de sua propriedade. E muita gente que trabalha com a justiça legal não reconhece como crime o uso abusivo de força ou o estupro entre cônjuges. E um sistema econômico que paga menos as mulheres do que aos homens pelo mesmo trabalho certamente as mantêm dependentes financeiramente de seus maridos. Assim, em qualquer interação mediada pela violência, provavelmente mais mulheres serão as vítimas e os homens, os agressores.

Mas isso quer dizer que os homens estão livres de serem agredidos dentro de um relacionamento?

Evidente que não. Devido a força física, muitas vezes são agredidos por parentes da esposa ou profissionais contratados.  Mulher também pode agredir se aproveitando de um momento de vulnerabilidade, durante o sono por exemplo. Há muitas histórias desse tipo.  Uma agressão muito comum, praticada em geral por mulheres de personalidade histérica, é a agressão psicológica, que tem como objetivo mobilizar o outro através de doenças, dores e problemas de saúde para obter atenção, cuidado e tolerância. Outro tipo de agressão possível por uma mulher, porém não exclusiva dela, é a agressão verbal, que se utiliza da palavra para depreciar a família, o trabalho e até mesmo o corpo do outro, com o intuito de diminuí-lo e humilhá-lo.

Mas, em função da maior incidência de violência estar contra a mulher, muitas vezes com a perda da vida, vamos nos ater a ela.

Abuso

Toda vez que alguém age de uma forma que não agiria normalmente se tivesse escolha, mediante violência, ameaça ou intimidação, está sofrendo abuso. Espancamentos frequentes, tapas eventuais, sacudidas ou mesmo apenas ameaças, são abuso. Manipulação também é, mas isso é assunto para outro artigo.

Violência doméstica: Entendendo a agressão às mulheres. Detalhando o ciclo da violência.

Em geral, os parceiros envolvidos em violência doméstica são mutuamente dependentes, e costumam contar apenas um com o outro para satisfazerem suas necessidades tanto físicas quanto emocionais. Nesses casos, sem outras fontes de gratificação, qualquer frustração em relação ao parceiro assume uma dimensão enorme. Um atraso na elaboração do jantar, ou uma camisa não ter sido passada leva o parceiro a tentar fazer o outro atender sua necessidade através da coerção. Quando o agressor acredita que não tem alternativa a não ser dar vazão a sua raiva e frustração através da violência, a vítima pode ser empurrada, agarrada, contida, estapeada, sacudida, chutada, mordida, esganada, socada, atingida com algum objeto, ameaçada ou atacada com faca ou arma. Esse ato elimina de imediato a fonte do estresse do atacante, e assim a violência é reforçada como uma maneira eficaz de lidar com a frustração e a dor. Em seguida vem o arrependimento. Os dois ficam chocados com o que aconteceu, o agressor jura que não acontecerá mais e tenta provar o seu amor e devoção. Para a vítima, este pode ser o único momento em que ela sente o parceiro próximo, afetuoso e amoroso, além de ter em suas mãos temporariamente o poder dentro da relação. Essa fase de lua-de-mel pode reforçar o ciclo de violência. Depois de repetidos episódios de espancamento, o padrão costuma ser abreviado: os ciclos que se completam mais depressa e se resumem ao acúmulo do estresse e ao ataque. Podendo culminar com a morte da vítima quando ela tenta romper esse ciclo.

Quem é esse homem que espanca

Em geral, quando acontece a violência doméstica entre adultos é porque houve abuso na infância, na família de origem. Independente de idade, raça, religião, status socioeconômico, educação e profissão, o ciclo se perpetua em geral da mesma forma: a criança que sofre abuso acredita que merece o que está sofrendo e vê a si mesma como sem valor; tem uma baixa auto-estima e uma alta dependência de valorização por parte de terceiros, o que por sua vez aumenta a vulnerabilidade a frustração e críticas, tendendo a interpretar gestos e palavras que não compreendem claramente como prova de rejeição. Se ela viu seus pais atuarem dentro de um relacionamento violento e abusivo, pode ter tomado esse modelo como padrão para seus próprios relacionamentos. O menino pode ter aprendido a expressar sua raiva através da violência, e dessa forma influenciar e controlar os outros; e a menina pode ter aprendido que o seu papel na vida é sujeitar-se a essas demonstrações de violência. Como o homem tem ideias tradicionais em relação aos papeis sexuais, e depende da parceira para quase tudo, esse homem sente verdadeiro pavor que a companheira o abandone, coexistindo assim o ciúme, suspeitas irracionais, questionamentos e acusações; pode proibi-la de sair sem ele, de exercitar-se, de encontrar com as amigas, de ir ao supermercado, de levar os filhos a escola, pode restringir o dinheiro, proibi-la de usar o telefone, de ter contato com amigos e familiares. Esse ciúme, já em nível patológico, pode levar a violência sexual – é frequente o estupro nos relacionamentos onde a mulher é espancada. Usando a violência para controlar e incapacitar a parceira, ele se sente mais poderoso e menos ameaçado pela possibilidade dela o deixar. Assim a violência é reforçada positivamente.

O papel das drogas

Segundo pesquisas, drogas e álcool estão presentes em pelo menos 80% dos casos de violência. O álcool desinibe e drogas pesadas, como a cocaína cria um quadro de paranóia (ilusão de perseguição ou delírio de ser traído) aumentando assim a possibilidade de violência. Apesar de alguns homens atribuírem seus atos violentos ao descontrole por estarem sob o efeito de drogas ou álcool, na maioria das vezes, eles já vinham praticando abusos antes dessas substâncias se tornarem um problema. E como os pontos agredidos na mulher geralmente estão ocultos – seios, estomago, base da coluna e partes da cabeça cobertos pelo cabelo – aparentemente ele sabe o que está fazendo. Ferir apenas onde o machucado não fica visível exige um considerável controle.

Pelo fato de serem treinados para usar a violência e técnicas de combate, e terem esses recursos acessíveis cotidianamente, os militares tem esses fatores como agravantes em relação a violência domestica. Além disso, estão submetidos a outros fatores de estresse: o trabalho é duro, mal pago, envolvendo experiências humilhantes ou que causam um sentimento de impotência. Tudo isso pode aumentar a necessidade de se sentir no controle, pelo menos em casa. Para a maioria deles, o homem tem de manter o seu papel tradicional – ser forte, competente e manter o comando. Quando os homens estão em missão, as famílias podem passar por longos períodos de separação, dificultando o relacionamento conjugal e parental devido à ausência de um contato regular. E para agravar, o padrão de mudanças constantes de um posto para outro dificulta a criação de laços de amizade para toda a família, intensificando o isolamento, que é um dos fatores mais importantes para a existência da violência física nos lares.

O que é agressão “instrumental”

Às vezes, a violência é tão compensadora que se torna uma forma habitual de se conseguir o que se quer. Aí não se trata mais de perda de controle num surto de raiva, mas sim uma maneira calculada de se obter o que se quer. É a chamada “agressão instrumental”, na qual a violência é usada como meio de se obter a recompensa. É um dos tipos mais assustadores e perigosos de abuso: o agressor não demonstra emoção alguma durante o episódio de violência, nem remorsos depois. Ele pode espancar diariamente a esposa sem nenhum motivo aparente, e sem parecer estar reagindo à raiva ou à cólera. Dificilmente ele pára de bater, mesmo que se coloque em tratamento, pois usa esse método como uma tática útil para obter a satisfação de suas necessidades.

E a mulher nisso tudo?

Para algumas pessoas a mulher que sofre violência em casa é passiva, cordata e manipuladora; e muitas vezes, ela é que leva o homem a se tornar violento.

Não é tanto vítima, mas “masoquista”, visto que permanece em uma relação em que é espancada com freqüência. Na verdade, a mulher volta para a relação violenta, mesmo depois de um período em abrigos para mulheres espancadas, porque freqüentemente depende financeiramente do marido, não tem treinamento profissional e é incapaz de sustentar-se e aos filhos. É comum que ele a ameace de morte se ela o deixar. Acata o papel feminino, passivo e obediente, porque assim ela evita provocar a cólera dele. Diante de um homem potencialmente violento e enraivecido, a tendência dessa mulher é tentar acalmar sua raiva. Com o tempo, esse comportamento torna-se uma resposta automática diante de qualquer demonstração de raiva – seja de quem for. Da mesma maneira ela pode aparentemente acatar as exigências do marido e indiretamente sabotá-lo. Esse comportamento, embora possa se classificado como manipulador ou passivo-agressivo, tem a função de suprir algumas necessidades importantes e protege-la de mais abuso.

O impacto que o abuso exerce sobre a auto-estima da mulher é devastador. Quando ela percebe que perdeu sua capacidade de se proteger, passa a ficar atenta a qualquer sinal de raiva ou eminência de surra por parte do marido. Não confia mais nas suas próprias percepções – como não percebeu que esse homem era capaz de violência? Se não era, algo nela a provoca, ou pior, merece a violência? Por tentar e nunca conseguir evitar a violência, acredita que é incapaz de mudar qualquer coisa e pára de tentar. Racionaliza, diminuindo a importância do abuso, o que ajuda a reduzir o medo a níveis toleráveis. Esconde os seus sentimentos até de si mesma. As vezes ela fala sobre os abusos com uma amiga, com o pastor ou com o médico, mas em geral a reação dessas pessoas é minimizar ou não levá-la a sério. Esse tipo de reação invalida a vivência dessa mulher, e ao mesmo tempo reforça sua negação do que de fato acontece. Além disso, nas fases de abuso ela pode ser constantemente menosprezada pelo marido, sofrendo o que chamamos de “abuso verbal” – ele pode culpá-la, dizendo-lhe que se ela fosse melhor cozinheira, melhor mãe, melhor dona de casa ou amante, o abuso não teria ocorrido. Não se espanta se após algum tempo muitas fiquem profundamente deprimidas sob uma fachada de alegria, com sintomas como dores nas costas, dores de cabeça, problemas de menstruação e falta de energia.

Nenhuma violência é justificável – sempre existem alternativas. Um homem escolher a violência para dar vazão a sua fúria é apenas isso – uma escolha. Mesmo que acredite que não possui outros recursos, ele é responsável pelo abuso. Mas ambos são responsáveis pelo estresse e pelo conflito existentes na relação. Assim, é possível mudar essa relação permeada pela violência, desde que a história de violência no relacionamento seja recente e a freqüência dos espancamentos pequena; que haja motivação para a mudança – que o agressor reconheça que tem um problema e esteja disposto a se tratar com profissionais especializados e sinta remorsos depois de cada episódio, sinal de que não está se utilizando da agressão instrumental. E a mulher também se disponha a aprender novas maneiras de lidar com conflitos.

 

 

Referências:

 

Paleg, K. “Maus tratos entre cônjuges”. Em Mckay, Matthew.(org.) Quando a raiva dói – Acalmando a tempestade interior. São Paulo: Summus Editorial, 2001, pgs 296/310.

Ballone, G.J., Ortolani IV. “Violência Doméstica”. Psiqweb.Internet, revisto em 2005: www.psiqweb.med.br

Cavalcante, A.M. O Ciúme Patológico. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 1997.

 

Estatísticas sobre feminicídio no Brasil, durante a pandemia: – https://www.brasildefato.com.br/2020/10/10/uma-mulher-e-morta-a-cada-nove-horas-durante-a-pandemia-no-brasil