São Paulo,
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Toda crítica que ouço, penso que é dirigida a mim.

Toda crítica que ouço, penso que é dirigida a mim.

Você está caminhando pela rua e quando cruza com duas pessoas que vem em sentido contrário, uma delas solta uma gargalhada – você logo pensa que disseram algo o ridicularizando?
Sua amiga comenta informalmente sobre “mulheres que não se vestem de acordo com a idade” em uma conversa – você fica preocupada que ela esteja lhe mandando uma mensagem cifrada sobre sua própria maneira de se vestir?
Você tira satisfações no trânsito com motoristas que insistem em fechá-lo “de propósito”? Vive reclamando que seu bebê, que começou a dentição há pouco tempo, chora a noite toda “apenas para torturá-lo”? Você ouve parte de uma conversa de sua esposa ao telefone, comentando a grosseria de alguém, e conclui que ela só pode estar falando de você, embora ela lhe assegure que falava sobre outra pessoa? Seu marido se mostra preocupado com seu cansaço e sugere que vá para a cama mais cedo, mas você tem certeza que ele queria era se livrar de sua companhia?

Levar tudo para o lado pessoal ou mania de perseguição é interpretar habitualmente perguntas, comentários ou comportamentos de outras pessoas como afrontas ao seu valor como ser humano, à sua aparência, competência ou perícia.

Pessoas caminhando e conversando na rua podem muito bem estar falando sobre algo engraçado que nada tenha a ver com você; sua amiga pode estar expressando apenas uma preocupação pessoal dela; motoristas que fecham sua passagem podem ser apenas maus motoristas, e seu bebê, como todo e qualquer bebê, pode estar chorando apenas porque na fase da dentição, os bebês choram a noite toda… Você não tem como saber do que realmente sua esposa estava falando ao telefone, mas recusando-se a acreditar nela, ou interpretando uma preocupação como uma tentativa de se livrar de você, o que você tem a ganhar é a abertura de uma fenda entre os dois ou o aprofundamento de um abismo já existente.

Usada de maneira equilibrada, essa forma de reagir pode ser muito útil, pois permite que a gente se defenda de ataques e críticas a nós dirigidos. Mas, se usada freqüentemente como uma forma padrão de comportamento pode causar dificuldades de relacionamento e muito sofrimento emocional desnecessário.
Uma pessoa incapaz de identificar as críticas que lhe são dirigidas reage a todas indiscriminadamente, e rejeita não só as que não lhe são pertinentes, mas também as que são, perdendo boas oportunidades de reconhecer possíveis melhoras de desempenho. O resultado é uma pessoa o tempo todo na defensiva, irritada, desmotivada e briguenta.
É natural ficarmos alertas para possíveis ataques de rivais e inimigos para nos defendermos adequadamente, assim como prestar atenção ao que dizem nossos entes queridos, para poder melhor lhes responder. Essa característica, que nos permite varrer o ambiente constantemente em busca de opiniões negativas a nosso respeito, é muito sensível, e precisa ser muito bem regulada. Se ficar muito baixa, pode perder informações de vital importância; se ficar muito alta pode se tornar um inferno de alertas de insultos e rejeições pessoais a todo instante e por toda parte, provocando todo tipo de sofrimento.
Quando entendemos como insulto algo que não teve essa intenção, somos nós mesmos a causa de nosso sofrimento. Quando por exemplo, atribuímos intenções negativas a uma pessoa, acreditando que por trás de suas palavras, gestos ou comportamento triviais, ela esteja tentando nos passar mensagens disfarçadas de criticas ou observações maldosas, estamos tentando adivinhar suas intenções. Pensar que não sabemos qual é a real intenção dessa pessoa, e considerarmos que existe a possibilidade que ela não tenha tido a má intenção de nos prejudicar, poupa-nos de um grande desperdício de energia.
O que nos leva a interpretar um comentário como um insulto? Possivelmente a nossa insegurança pessoal em relação ao que nossos amigos e conhecidos pensam a nosso respeito. Se você tende a levar tudo para o lado pessoal, provavelmente gasta muita energia procurando possíveis problemas e se martirizando por ofensas que não foram cometidas ou não são tão graves assim. Quando reunimos nossas forças para lidar não só com as agressões reais, mas também com aquelas não intencionais ou sem importância, podemos nos condenar a um permanente estado de entrincheiramento. Este, além de ser exaustivo ao extremo, deixa-nos pouco tempo ou energia para iniciativas mais produtivas – e amplia a distancia entre nós e os outros, que talvez prefiram não gastar sua energia brigando ou tentando explicar suas intenções a todo momento. Ninguém gosta de ser magoado, nem de ser rejeitado. Contudo, interpretar uma situação como uma afronta pessoal quando na realidade não sabemos ao certo se é esse mesmo o caso pode nos levar a evitar tais situações, reduzindo nossas oportunidades. O resultado é que acabamos nos rejeitando antes que mais alguém tenha a oportunidade de fazê-lo.
Há um certo sentimento de onipotência quando se acredita ser responsável pela felicidade das pessoas próximas, pelo bom funcionamento do local de trabalho, pelo sucesso do nosso time de futebol. Por outro lado, é ruim sentir que os outros nos responsabilizam por cada insatisfação ou irregularidade que ocorra – é um fardo muito pesado para se carregar. Ao percebermos que colocamos coisas demais sob nossa responsabilidade, e não estamos dando conta, vamos nos sentir culpados. Da mesma forma que seria injusto que outra pessoa depositasse sobre nosso ombros o peso de tamanha responsabilidade, também é injusto que nós mesmos façamos isso.

Muitas vezes, uma sucessão de eventos desagradáveis – ou que parece configurar uma sucessão em nossa percepção – pode nos dar a idéia de que são encadeados e tem uma origem comum, para nos perseguir e punir por não sermos perfeitos. Relacionamentos que não dão certo um atrás do outro, mortes de entes queridos; perdas financeiras. Mesmo quem dificilmente leva as coisas para o lado pessoal começa a entrar numa certa paranóia. Ninguém gosta de ser lembrado de que não pode fazer tudo, fazer certo e agradar a todo mundo, todo o tempo… Para algumas pessoas muito sensíveis, não importa se o comentário ou critica vem de alguém cuja opinião não vem ao caso, ou se essa critica não é muito clara ou específica. O mero fato de ser, ou se sentir criticado derruba a auto-estima, os coloca na defensiva e os faz sentir errados, culpados e atemorizados.
Sabemos que pedir para alguém que sofre de mania de perseguição examinar com certa isenção a crítica recebida ou imaginada é muito difícil, porque se trata de uma reação automática. Mas, como toda reação automática, às vezes ela está certa, às vezes ela está errada. Discernir o certo do errado, lembrar-se das palavras e do comportamento exato, e principalmente imaginar se não haveria uma outra explicação possível para tais palavras ou atitudes além de insultá-lo, pode ajudar e muito. Uma vez que você não sabe a verdade, isto é, qual foi a real intenção da pessoa, faz sentido considerar outras possibilidades que não impliquem em agressão pessoal, que despertem mágoa, raiva ou constrangimento. É uma escolha. Se você reconhecer a existência de outra alternativa tão provável quanto aquela que você percebe como uma afronta pessoal, sua reação já será diferente. Será menos provável que você se sinta agredido é mais fácil conceder aos demais o benefício da dúvida. Serão menores as chances de você se zangar e maior a probabilidade de se dispor a investigar, explorar e tentar.

Algumas vezes a gente se sente agredido porque foi realmente agredido; outras vezes faz sentido entender um comentário genérico como um ataque pessoal. Às vezes é merecido, às vezes não. Você tem toda razão de ficar com raiva. O que fazer então?
Às vezes também pode ser sábio admitir a sua responsabilidade pessoal por determinado acontecimento – por mais que, a rigor, você não seja o único responsável. As pessoas que se sentiram prejudicadas com suas atitudes e a criticam agora, muitas vezes querem apenas um reconhecimento de que você lamenta o ocorrido. Mas, e se a acusação for injusta? Ao examinarmos as possíveis conseqüências de ensinar uma lição para aquele cretino, você pode concluir que, por mais que a raiva se justifique, se insistir
no confronto, você pode acabar perdendo bem mais do que ganhando. É uma boa idéia considerar a possibilidade de escolher quais brigas comprar, tanto em termos emocionais quanto intelectuais e físicos. Quem está o tempo todo entrincheirado acaba num estado de permanente exaustão – e pessoas exaustas não lutam bem. Você vai responder melhor se escolher onde concentrar o seu poder de fogo. Pergunte-se se a pessoa que está dizendo isso tem alguma importância para você; se o agressor for um estranho, um idiota, um bestalhão talvez seja melhor simplesmente deixar prá lá. Novamente, a melhor maneira de lidar com a situação é termos consciência do que estamos fazendo e quando. A questão básica envolvida na escolha das brigas a comprar é se existe alguma vantagem em reconhecer esse insulto e tomar alguma atitude – a partir daí, podemos optar por não nos deixarmos atingir.
13/11/11 S.P.

Resumo do texto “Mania de Perseguição”, Cap. 4, do livro “As 10 Bobagens Mais Comuns Que As Pessoas Inteligentes Cometem E Técnicas Eficazes Para Evitá-las” – Dr. Athur Freeman e Rose DeWolf, Edit. Guarda-Chuva, Rio de Janeiro, 1992