São Paulo,
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Por que eu não consigo dizer “não”?

Você já deve ter ouvido falar em “assertividade”. O que essa estranha palavra quer dizer? Assertividade é o comportamento que habilita uma pessoa a defender seus direitos sem violar os dos outros. Envolve a expressão direta e clara das necessidades e preferências, emoções e opiniões da pessoa sem que ela experimente ansiedade indevida ou excessiva, e sem que ela seja agressiva em relação ao outro.
Normalmente a assertividade se manifesta através da capacidade de se dizer “não”. Dizer “não” é uma declaração de limites. Estabelece um território onde estão suas próprias necessidades e vontades, e fora dele, as dos outros. É uma informação para o mundo de que você é uma pessoa com necessidades, preferências e predileções tão validas quanto à dos demais, e que sabe cuidar de si mesma.
Na medida em que você falha ao se expressar nessa área – quando, por exemplo, aceita fazer alguma coisa apenas por que alguém pediu, ou deixa de solicitar algo legitimo e do qual necessita – você é o primeiro a violar os seus próprios direitos, e acaba dando ao outro a permissão para fazer o mesmo. Esse estilo passivo de reagir às solicitações dos outros consiste basicamente em evitar dizer qualquer coisa que possa ofender, desagradar, ou provocar confrontos. Na aparência, você é uma pessoa boa, doce, cordata. Mas internamente sente a imensa dor da impotência e toda a raiva gerada por esse sentimento, culpando os outros por não reconhecerem o que é importante para você. Talvez você tente fazer valer seus direitos de forma agressiva, exigente e ameaçadora. Isso não é assertividade porque, ao mesmo tempo em que você defende seus direitos, viola os dos outros, ameaçando e punindo. É uma forma de dizer aos outros o quanto eles são maus e errados por não lhe darem o que você quer. Essa estratégia acaba saindo cara, pois nosso comportamento não ocorre num vácuo: ele afeta tanto quem emite quanto quem recebe, e quando você bate em alguém, física ou psicologicamente, essa pessoa pode golpeá-lo de volta. E sempre ficará a dúvida se é por amor ou medo que até mesmo as pessoas mais queridas cooperam com você.
Uma outra forma passiva de agir é quando você expressa suas opiniões e pede por seus direitos através de mensagens com duplo sentido, onde há contradições no conteúdo ou discrepâncias entre o conteúdo e o comportamento não verbal. É o caso das mensagens cujo objetivo é levar o outro a adivinhar os seus sentimentos e desejos (em geral eles adivinham errado), ou fazê-lo se sentir tão mal ou responsável por você ou pelos seus problemas que acabará fazendo o que você quer, mesmo contra a vontade.
É natural que uma pessoa assertiva nem sempre se comporte de maneira firme, clara e direta com todas as pessoas e em todas as situações. Como uma pessoa não nasce “assertiva”, ou “não assertiva”, ela sofre um processo de aprendizagem ao longo do caminho e aprende a agir com maior ou menor habilidade, dependendo da situação ou da pessoa – pais, professores, crianças – a quem ela se dirige. Mas, certamente o será na maioria das situações e com a maioria das pessoas.
“Não” é uma das primeiras palavras que se aprende na infância e a primeira que nos permite tornar nossas necessidades conhecidas. Mas, se dizer a palavra “não” é uma forma tão básica e tão simples de ser assertivo, porque tanta gente tem dificuldade em fazê-lo?
Provavelmente seus pais nunca se sentaram com você para lhe explicar como providenciar o atendimento de suas próprias necessidades. Você aprendeu observando-os e aos outros adultos agindo quando resolviam conflitos de interesses, inevitáveis quando as pessoas tinham necessidades diferentes. Ouviu como expressavam sua desaprovação e como estipulavam seus limites. Aprendeu, através do exemplo dado por eles, qual era o tom de voz e a linguagem corporal e se usaram acessos de birra, intimidação ou afastamento. Viu também as conseqüências quando alguém não conseguia colocar limites e dizer não a certas expectativas e exigências. Viu a amargura instalada de forma persistente quando os problemas eram jogados para baixo do tapete. E aprendeu também o quanto era dolorido alguém ficar com raiva de você. Para uma criança, a raiva de um adulto poderoso e do qual depende, é aterrorizante. Algumas crianças aprendem a evitar a raiva de um adulto através da submissão, e quando adultas por sua vez, negam seus sentimentos e necessidades para se sentirem seguras, repetindo inconscientemente o comportamento infantil que a ajudou a sobreviver na infância. Outras aprendem que uma boa ofensa é a melhor defesa. E saem por ai agindo de maneira agressiva, usando de ameaças de violência e outras formas de intimidação para evitar conflitos e escapar das criticas. Para as pessoas sensíveis a criticas, não importa se é uma questão sem importância, se é imprecisa ou se vem de alguém cuja opinião não interessa. Ser criticado o leva de volta a infância, o faz reviver o mesmo sentimento de estar errado, de ser mau, não ter valor, de quando era corrigido e julgado por pais enraivecidos. Como muita gente espera irracionalmente que possa fazer tudo, fazer certo e agradar a todos, a critica, que os lembra de que não são perfeitos, é vista como uma ameaça e traz o medo de que qualquer falha os leve a perder o amigo, o emprego, o apoio.
Em geral, a educação religiosa e moral na infância fixa na mente das pessoas que o altruísmo é uma qualidade a ser admirada e aqueles que cuidam de si mesmos em primeiro lugar são egoístas e devem ser execrados. Em certas famílias disfuncionais, fica para um ou mais dos filhos a tarefa de pacificar e cuidar dos demais membros do grupo. Somente ao colocar antes as necessidades dos outros, negando as próprias, é que conseguem sobreviver. Essas lições de sobrevivência, com já vimos, permanecem vivas por muito tempo, mesmo depois de terem deixado de ser úteis ou apropriadas.
Pessoas cuja auto-estima está comprometida têm uma dificuldade especial em dizer “não”. Não se sentem com direito a limites de ordem pessoal, pois não se dão valor e acreditam que os demais pensam da mesma forma sobre eles. Muitas vezes desconhecem seus direitos. Têm medo de que, dizendo “não” possam perder o emprego ou ser abandonado pelos amigos. Sua esperança de evitar decepções para os outros, ou de evitar que sintam raiva, é que alimenta sua atitude de concordar com tudo.
O comportamento não assertivo certamente traz vantagens, mesmo que apenas a curto prazo, senão não se manteria. Mas, tendem a acumular ressentimentos, frustrações e magoas a longo prazo; e embora essas estratégias tenham ajudado a uma criança vulnerável a sobreviver na infância, raramente levam um adulto que se pretende maduro muito longe.
O fator mais importante a ser lembrado a respeito da assertividade é que você tem todo o direito de expressar suas necessidades, assim como as demais pessoas – as necessidades delas são tão importantes para elas quanto as suas o são para você. É importante ressaltar que o uso da assertividade não garante que os conflitos entre duas ou mais pessoas deixem de existir. O que acontece é que, quando duas pessoas cujos interesses divergem se comunicam de maneira firme, direta e clara é mais provável que reconheçam essa divergência e trabalhem para chegar a um acordo, sem recorrer à raiva ou a manipulação, ou simplesmente decidam manter sua posição, respeitando a do outro. Você pode se proteger sem reclamar, sem agredir e sem afastar os demais. Pode colocar limites sem que as pessoas deixem de gostar de você. A comunicação assertiva funciona em praticamente todos os problemas de relacionamento: sexo, dinheiro, luta pelo poder, conflitos no trabalho ou na escola. A chave está em ser direto, claro e não agressivo. Não se esqueça que você só é responsável pelo seu próprio comportamento – se a outra parte resolver se comportar de forma não assertiva, o problema é dela.

Referencias bibliográficas:

Breitman, P.; Hatch, C. “Como dizer não sem sentir culpa”. Editora Rocco Ltda – Rio de Janeiro – 2000.

M.D. Galassi e J.P. Galassi, “Assert Yourself” Humn Sciences Press,
traduzido e adaptado por Catarina Dias e Guiomar Gabriel, GAPsi – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. (Internet)

McKay, M.; Rogers, P. D.; McKay, J. “Quando a Raiva Dói –
Acalmando a Tempestade Interior”. Summus Editorial – São Paulo – 2001.