São Paulo,
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O narcisista “distraído” e o “hiper-vigilante”

Apesar de não ter assistido ao BBB17, um reality criticado e que supostamente tem perdido audiência, ficou difícil ignorar comentários, notícias e posts sobre a participante vencedora deste ano, que não economizou em número e grau nos elogios a si mesma: “Sou sensacional”; “Eu brilho tanto que provoco inveja nas pessoas” são algumas das frases da jovem que foram veiculadas pela internet que não deixavam dúvida sobre o “estrelismo” que acreditava estar exercendo (e realmente estava…). Algumas pessoas vêem em como a personagem se expressa o que gostariam de sentir e outras a rejeitam como alguém com quem não gostariam de se relacionar… Não deixa de ser interessante sob o ponto de vista do comportamento humano. Teria ela uma personalidade narcisista? É preciso muito mais informação sobre uma pessoa para afirmar qualquer coisa a seu respeito. Narcisismo é um termo usado de forma generalizada e que quase sempre implica em depreciação. Chamamos alguém de narcisista quando o consideramos desagradável ou insensível. Ou quando o invejamos e não estamos atentos as nossas próprias questões narcísicas…
Freud cunhou o termo “narcisismo” a partir do mito grego do jovem Narciso que se apaixonou por sua bela imagem refletida no lago e acabou morrendo em função desta paixão.
Ter e demonstrar amor próprio é saudável. Qual seria o ponto em que isso se torna patológico? A principal característica da personalidade narcisista é precisar de afirmação externa para se sentir valorizado internamente. O “ego inflado” ou o self grandioso, caracterizado por fantasias de muito sucesso, superioridade e poder já pode ser observado durante a adolescência da pessoa que mais tarde vem a apresentar este transtorno. Certo ar de superioridade, idéias irrealistas sobre si mesmo e suas qualidades em contraste com a realidade são facilmente observáveis. A presunção de ser perfeito e, portanto incapaz de errar, o faz responsabilizar os demais e as circunstâncias pelo que lhe acontece de negativo na vida. Estar fisicamente doente lhe é particularmente difícil, porque o faz sentir-se numa posição inferior aos demais que estão saudáveis. Essa dicotomia superior/inferior é uma constante, e já aparece nas formas mais brandas do transtorno narcisista: o prazer em enganar as pessoas (ele é o “esperto” e o outro, o “bobo”); não respeitar filas, regulamentos e leis, pois se considera “acima” das demais pessoas; considerar-se com direito a privilégios e deferências; não falar com qualquer um, de forma que fique claro que é superior. Sem o exercício da superioridade, a pessoa se sente vazia. Essas atitudes ou comportamentos são mais intensos e freqüentes quanto mais grave for o narcisismo. A relação superior/inferior destrói a solidariedade e não dá lugar para a empatia e para o amor. O narcisista tem uma capacidade de amar atrofiada, e embora precise, e muito, das outras pessoas para seu equilíbrio, a necessidade sufocante de reafirmação do seu valor pessoal não dá espaço para que elas existam fora de suas funções e extensões narcisistas. Não existe amor pela esposa e filhos, e sim um sentimento de ser “o chefe” da família. A origem dessa atitude pode estar no fato delas mesmas terem sido usadas com o apêndice narcisista, importantes para os pais, não pelo que eram, mas pela função que preenchiam. A falta de empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro, conduz a instrumentalização desse outro, isto é, o torna um objeto, que pode ser facilmente descartado.
Querer admiração é normal, mas o narcisista patológico, principalmente o tipo histriônico, mais afeito a demonstrações ou exibicionismo, quer muita admiração. O poder massacrante da opinião alheia faz com que os narcisistas dêem mais importância ao que os outros vão dizer do que a sua própria saúde e segurança.
Existem muitos tipos de personalidade organizada narcisicamente, todas diferentes entre si, além do tipo mais conhecido, o grandioso, mas tendo em comum o pavor da insuficiência, da vergonha, da fraqueza e da inferioridade. Na outra ponta, com a mesma dificuldade com identidade e auto-estima, e o mesmo padrão de relações interpessoais está o tímido, silenciosamente grandioso, cuja extrema sensibilidade ao desprezo o leva a evitar a exposição. O primeiro pode ser chamado de narcisista “distraído”, e este de narcisista “hiper-vigilante”. Embora com o mesmo objetivo de manter a auto-estima, o fazem de forma diferente. O “distraído”, absorto em si mesmo, não tem consciência da reação dos outros; arrogante e agressivo precisa o tempo todo ser o centro das atenções. Ao invés de falar “com”, fala “para” as pessoas. Aparentemente não pode ser magoado. O “hiper-vigilante” evita ser o centro das atenções, escuta e observa as pessoas em busca de sinais de descaso ou crítica; inibido, tímido e retraído, magoa-se facilmente. Evita a visibilidade, certo de que, ao ser notado será humilhado e desprezado. A explicação estaria na existência de um profundo sentimento de vergonha relacionado a um desejo secreto de exibir-se grandiosamente, em luta com um sentimento de estar longe do padrão ideal que, acredita, deveria ter. Os narcisistas “distraídos” batalham para manter a auto-estima tentando impressionar os outros com suas posses e realizações enquanto se protegem da dor selecionando as respostas que querem ouvir; os “hiper-vigilantes” o fazem evitando situações na qual se exponham e avaliando cuidadosamente o outro para saber como se comportar. Na verdade, projetam nos outros a sua própria desaprovação à sua fantasia grandiosa, transformando-os em seus perseguidores. Como diz McWilliams,“Todo narcisista vaidoso e imponente esconde uma criança acanhada e consciente de si mesma, e todo narcisista depressivo e autocrítico esconde uma visão grandiosa do que a pessoa deveria ou poderia ser”.
Os sentimentos de vergonha e de inveja são as principais emoções relacionadas com a estrutura narcisista. A vergonha pode ser confundida com a culpa, porém a culpa é a certeza de ter pecado ou cometido erros a partir de uma visão interna, enquanto a vergonha é a sensação de estar sendo visto como mau ou incorreto, portanto, uma visão de fora de si mesmo. A tendência a crítica observada na pessoa organizada narcisicamente pode ter origem na inveja que ela sente dos demais: quando acredita ou percebe que lhe falta algo, e que o outro aparentemente tem tudo, tenta destruir o que o outro tem deplorando, ridicularizando e desprezando.
Dentre os possíveis fatores atuantes no desenvolvimento de uma estrutura de personalidade narcísica, estaria a confusão formada na cabeça de uma criança com algum talento especial, criada como se fosse uma extensão de um dos pais – assumir sua vida ou a de seu cuidador? Uma criança envergonhada, prejudicada ou “especial” é muitas vezes encontrada na raiz do narcisismo patológico do adulto, porque constantemente avaliada, mesmo que positivamente, se sente julgada o tempo todo, não merecedora de toda aquela adulação pelo que é – sente-se uma fraude. Sob a condição implícita de que atenda aos objetivos narcisistas dos pais, a criança esconde seus sentimentos, principalmente os negativos como raiva e egoísmo, pois exteriorizá-los a colocaria em risco de ser rejeitada e humilhada. Isso alimenta um falso “eu”, que é a imagem perfeita que tenta mostrar para o mundo. Outra possibilidade seria que, para compensar a falta de afeto, descaso e hostilidade dos cuidadores, o bebê inflaria o ego para compensar o sentimento de desvalia e assim depender menos dos outros. Em estudos realizados por teóricos importantes, observou-se com freqüência a existência, dentro de um contexto aparentemente bem organizado, de pais ou substitutos com certo grau de insensibilidade, indiferença, e agressão não verbalizada.
Chamamos de “defesa psicológica” todo processo mental inconsciente que visa reduzir ou suprimir qualquer modificação que possa por em perigo a integridade e a constância de um individuo, física e emocionalmente, como por exemplo uma emoção forte e devastadora, como a raiva e a ansiedade, e manter a auto-estima.
A desvalorização e a idealização são os processos de defesa mais usados pelas pessoas narcisicamente organizadas. São processos complementares, pois quando o eu é idealizado, os outros são desvalorizados e vice-versa. Diante de qualquer questão que surja para essas pessoas, vantagens e desvantagens reais ficam sempre em segundo plano diante da avaliação de prestígio: qual é o “melhor” médico? Qual é a escola “mais” renomada? Onde está o treinador “mais” rigoroso? Outra posição defensiva é o perfeccionismo, expressa através de criticas constantes a si mesmo e aos outros, dependendo de onde o eu desvalorizado for projetado e na falta de habilidade em encontrar alegria e prazer na vida. As pessoas com estrutura de personalidade narcisista apegam-se a ideais irrealistas e se sentem intrinsecamente fracassadas se não o alcançam.
O narcisista procura por terapia apenas, e eventualmente, se passa por um abalo significativo no self grandioso, quando o ego ideal é ferido e ele não vê saídas, pois não tem plano “B”. Quando a mulher o abandona, uma doença grave o acomete, seus negócios vão à falência, ou é humilhado por um superior, fica sem saber como situar-se. Mas o mais comum é partir para a vingança e para o uso de drogas ou álcool. Mesmo aceitando a terapia, tem dificuldades em permanecer no processo, justamente porque para ele é como se submetesse ao terapeuta, fosse o inferior na relação. Já em terapia, podem ter a expectativa de que está ali para se auto-aperfeiçoar, ao invés de entender a si mesmo e descobrir meios mais efetivos de lidar com suas necessidades.

Referências:
Diagnóstico Psicanalítico – Entendendo a Estrutura da Personalidade no Processo Clínico – 2014 – Nancy McWilliams – Editora Artmed
Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clinica – Glen O. Gabbard – 2006 – Editora Artmed
Anotações em sala de aula – Curso Psicossomática Psicanalítica – Prof. Wilson Campos Vieira