São Paulo,
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Autoestima

 

Alguns psicanalistas torcem o nariz diante da referência ao termo “autoestima”. Na verdade o termo parece banal, não científico, possivelmente em função do excesso de popularidade adquirido através da literatura de autoajuda. O conceito envolve não apenas o que se pensa a respeito de si mesmo, isto é, a nossa autoimagem, mas também os sentimentos que esses pensamentos fazem surgir em nós e suas consequências nos nossos relacionamentos afetivos, sociais e profissionais no dia-a-dia. A ideia de autoestima está fortemente relacionada à saúde mental e ao bem estar psicológico, e sua ausência a situações de risco como depressão e suicídio. É frequente uma baixa autoestima estar entre as queixas apresentadas por pessoas que procuram  por ajuda  psicológica.

Como identificar

A forma como enfrentamos situações constrangedoras, reagimos às criticas ou à rejeição oferece indícios claros a respeito de como anda a nossa autoestima: facilidade em fazer boas escolhas, se abater menos com eventuais fracassos ou julgamentos de terceiros; manter a estabilidade emocional ao enfrentar adversidades, ser assertivo e mais sincero em suas respostas são sinais de uma autoimagem positiva.

Tem que estar elevada todo o tempo?

Ao contrário do que se possa pensar, não é necessário, e nem possível, que nossa autoestima permaneça elevada todo o tempo, e sim estável diante de eventos adversos. A pessoa pode se reconhecer forte, inteligente, interessante ou integrada socialmente, e ao mesmo tempo admitir que erra, sente medo e insegurança eventualmente, e incomodar-se verdadeiramente com isso. Isso porém não abala o seu equilíbrio, nem é motivo de vergonha, e sim uma oportunidade para autoquestionamento e aprendizado. Quando alguém privilegia o reconhecimento e avaliação externa em detrimento da obtenção de objetivos íntimos, como por exemplo, relacionar-se com mais serenidade e de forma mais generosa, pode tornar-se excessivamente dependente das opiniões alheias e consequentemente mais vulnerável às oscilações da autoestima.
Estudos confirmam que a autoestima sofre menos oscilações quando se baseia prioritariamente em diferentes domínios de competência na vida de um indivíduo. Valorizar conquistas em diferentes setores e diversificar interesses olhando para si como alguém capaz de desempenhar vários papéis e obter sucessos mais ou menos significativos em diferentes campos é fundamental para manter autoestima saudável.
O insucesso numa área específica da vida não leva alguém com boa autoestima a se desqualificar integralmente como pessoa baseado apenas nesse item.
Favorecendo a resistência a adversidade, a autoestima funciona como uma espécie de “sistema imunológico da consciência”, facilitando a adaptação ao meio e o bem-estar emocional. Evidentemente a autoestima estável não é vacina contra as repercussões psicológicas de uma situação crítica capaz de desencadear sentimentos de autodesvalorização, tristeza, e depressão, mas certamente permite uma recuperação mais rápida e com poucas sequelas emocionais.

Precisamos também ser valorizados pelos outros

O ser humano é um animal social por necessidade. Como primatas, somos mal equipados para enfrentar predadores, condenados a viver em grupos e particularmente sensíveis a toda forma de rejeição social. Nos primórdios da evolução, ficar afastado do grupo significava perigo concreto à sobrevivência. Assim, a autoestima seria uma espécie de barômetro social, capaz de refletir sentimentos de popularidade e de aceitação. Diante de uma situação de exclusão, as pessoas tendem a se tornar inseguras a respeito de seus próprios julgamentos. A desvalorização social interfere nos mecanismos de autocontrole que permitem enfrentar desafios novos de forma equilibrada. O indivíduo rejeitado não se empenha nem se controla tanto quanto os que foram escolhidos por seus pares; abandona mais cedo tarefas difíceis e aceita correr mais riscos, além de perder o domínio de si e a motivação. O receio de ser rejeitado, mesmo que isso não ocorra efetivamente, provoca o mesmo efeito. Duvidando de si mesmo e de sua aceitação social, a pessoa vigia-se o tempo todo, convencida de que os que estão ao seu redor fazem o mesmo, atentos ao seus defeitos. Quanto a autoestima vacila, temos a desagradável sensação, e em geral equivocada, impressão de que somos o centro das atenções. Os tímidos frequentemente sofrem com esse autoengano.
Manter a boa autoimagem é importante para a saúde psíquica, mas nem sempre é fácil valorizar-se e respeitar as próprias limitações, sem usá-las para se torturar, sobretudo quando nos sentimos mais vulneráveis. Situações de crise ou de fracasso são propícias para o desencadeamento de quadros patológicos como ansiedade, depressão ou bulimia. Centrado no próprio sofrimento, o indivíduo irrita-se com as próprias dificuldades, repete incessantemente pensamentos depreciativos e se concentra em si mesmo, esquecendo o universo ao redor e estabelecendo um círculo vicioso. Quando é possível olhar para o mundo e realmente se interessar pelo que está fora de nós fica mais fácil suportar as próprias dificuldades. A boa autoestima funcionaria de forma análoga a um motor que cumpre sua função de maneira silenciosa: facilita o vínculo com o mundo externo e o faz menos assustador.

Quando a autoestima não corresponde a capacidades reais

Porém, o apreço exagerado por si mesmo sem razões objetivas para isso, pode denunciar um desejo inconsciente de encobrir a própria falta de confiança. E apesar deste comportamento ser uma forma de defesa, desenvolvido em função de experiências dolorosas de humilhação na infância, superestimar nossas capacidades pessoais pode comprometer nossa saúde e nossa vida profissional e pessoal. Pessoas que se consideram superiores à média no exercício de suas funções, acreditando possuir qualidades que os tornam especialmente bons, e que tendem a se situar acima dos outros sem sustentação para isso, o fazem de maneira instável, perdendo a máscara quando enfrentam situações difíceis, tais como uma rejeição social ou problemas profissionais. Além disso, dificilmente assumem a responsabilidade por seus próprios fracassos, passando-as aos outros ou as circunstâncias, e não toleram críticas. Um conceito instável a respeito de si mesmo revela a necessidade de reconhecimento constante pelos demais e incerteza quanto ao próprio valor. Sentindo-se em muitas ocasiões como se fosse uma fraude nos diferentes papéis que desempenha, por exemplo, o de marido, amigo, pai e profissional, a pessoa tenta convencer aos outros e a si mesma de suas qualidades, exagerando-as ou fazendo-as ressaltarem. Avaliações excessivamente otimistas tais como acreditar que jamais será infectado por uma doença como a COVID19, ou que se é muito hábil ao volante, podem ser perigosas, expondo a pessoa a riscos concretos. Decisões infelizes orientadas por teorias plausíveis, porém equivocadas, podem ter consequências graves quando, por exemplo, a pessoa se acredita muito resistente e não se preocupa em prevenir doenças.
Pesquisas mostram que a falta de acesso a informações alimenta a superestimação. É comum que as pessoas não tenham consciência clara das soluções que poderiam ter proposto, mas que lhes escaparam. Isto é, dos erros que cometeram por omissão. Além disso, em razão da falta de comentários sobre suas ações, muitas vezes mal recebidos ou ignorados devido à intolerância a críticas, o indivíduo corre o risco de superestimar o próprio discernimento e assim surpreender-se de forma desagradável.
Previsões errôneas sobre o futuro em geral excessivamente otimistas, também resultam da ausência de informações necessárias, de muitas das quais realmente não é possível dispor. Cada detalhe pode influenciar a escolha, mas é preciso decidir sem que tenhamos todas as respostas. Procurar compreender como os outros pensam e o que sentem sendo empáticos, pode ajudar a se ter uma ideia mais clara sobre nós mesmos. Entender o ponto de vista alheio externo implica priorizar fatos e não apenas elaborações pessoais, muitas vezes contaminadas por nossas inseguranças e preconceitos.

 

Este artigo é um resumo dos artigos de:
Christophe André – “Questão de autoestima” – psiquiatra do Hospital Sainte Anne, em Paris e professor da Universidade Paris X; e de David Dunning, Chip Heath e Jerry Suls – “Reflexos distorcidos”. David Dunning é professor de psicologia da Universidade Cornell e Jerry Suls da Universidade de Iowa. Chip Heath leciona administração na Escola de Comércio de Stanford. Ambos os artigos foram traduzidos por Alexandre Massella e publicados na revista Viver Mente & Cérebro, ano XIV, nº 163 – setembro 2006 – págs. 48/53 e 55/57 respectivamente.