São Paulo,
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O Narcisismo segundo Alexander Lowen

Aquela idéia disseminada de que narcisista é quem adora se olhar no espelho, vaidoso e com uma boa auto-estima passa um bocado longe do que vem a ser a realidade. É normal e saudável nos preocuparmos com nossa aparência investindo uma energia considerável em qualquer coisa que possa melhorar nossa imagem. Mas não estamos falando de uma preocupação saudável com a imagem, e sim de projetar uma imagem bem diferente do que se é na realidade. Aliás, o narcisista sequer sabe quem realmente é, estando muito mais preocupado com o que aparenta ser do que com o que sente; nega qualquer sentimento que contradiga a imagem que deseja projetar. São extremamente egoístas, preocupados apenas consigo próprios; não têm sentimentos e colocam a ambição e o sucesso acima de qualquer necessidade emocional. Ardilosos e sedutores, têm como seus principais objetivos o poder e o controle.

Quanto mais a pessoa se identifica com sua imagem, mais narcisista ela é, distanciando-se dos seus sentimentos e da percepção do seu próprio corpo. Ter uma auto-imagem, ou ser auto-consciente não é ser narcisista, a não ser que haja uma discrepância visível entre essa imagem e como a pessoa se sente realmente. Uma pessoa que se julga atraente e sedutora para o sexo oposto não é narcisista se ela for realmente atraente e sedutora.

Os tipos chamados simplesmente de “narcisistas” são os menos patológicos: são aqueles homens e mulheres que se preocupam com sua imagem sexual, exibindo arrogantemente autoconfiança, superioridade e dignidade exageradas. Os homens com seus egos investidos na sedução de mulheres, e as mulheres tendendo a medir seu valor pela atração sexual que exercem. Essas pessoas têm necessidade de ser perfeitos e de serem vistos como tal. Até exibem realizações e sucesso, porém, sempre contrastando com a realidade. Apesar de terem dificuldades em se relacionar de maneira humanizada com as pessoas, ainda conseguem manter ligações fortes com elas.

A “personalidade de fronteira”, ou borderline, é um tipo de narcisista que tanto pode apresentar, como não, os sintomas característicos, chegando alguns até a projetar uma imagem de sucesso, sustentada por fatos reais. Mas, ao contrário dos outros, sua fachada desmorona facilmente diante de qualquer estresse emocional. Alguns, com a grandiosidade e arrogância ocultas por não serem sustentadas por realizações concretas, apresentam-se como carentes, vulneráveis e dependentes; sua principal queixa é a depressão, da qual não escapam, mesmo que venham a obter um êxito real. Embora os narcisistas e os borderlines tenham ambos uma auto-imagem, exagerada, no primeiro caso ela está em menor conflito com a realidade porque nunca foi confrontada, enquanto no segundo ela oscila entre dois pontos de vista diametralmente opostos – ou são fantásticos, maravilhosos, ou são absolutamente imprestáveis. A fantasia de grandeza, nesses caso, pode se tornar ainda mais necessária para compensar a ameaça real de não ter nenhum valor. Essa grandiosidade pode ter sua origem na relação da criança com os pais – ninguém se julga um príncipe devido a uma falha no desenvolvimento – e sim porque foi criado nessa crença. O modo como os pais vêem e tratam a criança reflete profundamente na maneira como elas vêem a si mesmas.

Ao separar o corpo, que é um fenômeno biológico que nasce conosco, do ego, que é uma organização mental que se desenvolve a medida que evoluímos, o narcisista separa a consciência de seu alicerce vivo, e ao invés de funcionar como um todo integrado, a personalidade é dividida em duas partes.
O que sentimos depende das sensações que percebemos em relação ao que acontece me nosso corpo, na maior parte das vezes, de maneira inconsciente. A vontade do ego é incapaz de criar uma sensação, embora possa tentar controlá-la. Uma pessoa não pode verdadeiramente desejar, pelo uso da vontade, uma reação sexual, um apetite, um sentimento de amor, ou mesmo raiva – por muito que pense poder.
Podemos vivenciar o corpo diretamente através da sensação ou podemos ter uma imagem deste corpo, através de uma conexão indireta. Uma pessoa saudável tem a consciência dessa dualidade sem problemas, porque a imagem e a experiência direta através do corpo coincidem. Isso é auto-aceitação, que os narcisistas não possuem. Quanto maior a incongruência entre a imagem e o próprio corpo mais sério é o distúrbio de personalidade existente. Nos distúrbios narcisistas a incongruência é menor do que na esquizofrenia, mas é suficiente para produzir uma divisão de identidade com a resultante confusão. Os narcisistas evitam a confusão negando a identidade baseada nos seus corpos, sem entretanto se dissociarem dele, como os esquizofrênicos o fazem. Dado que é através do corpo que vivenciamos o mundo externo, se negarmos o sentimento do corpo cortamos relações com o mundo.

Normalmente o investimento de energia na imagem é feito deliberadamente – conquistar poder e ganhar dinheiro não tem nada a ver com os sentimentos a nível do corpo.
O tipo “personalidade psicopática”, além de negar seus sentimentos como os demais tipos de narcisismo, é extremamente arrogante e considera-se tão superior as pessoas comuns que chega a desprezá-las. Uma característica especial deste tipo é a tendência para transformar em atos os seus impulsos, em geral de maneira anti-social com mentiras, fraudes, roubos, e assassinatos, embora possa assumir outras formas como o alcoolismo, toxicomania e promiscuidade sexual, sem qualquer sinal de culpa ou remorso. O termo “transformar em atos” descreve um tipo impulsivo de comportamento que ignora os sentimentos das outras pessoas, e é altamente destrutivo. Os impulsos que estão por trás desse comportamento manifesto tiveram sua origem em experiências tão traumáticas quanto intensas, vividas no começo da infância, que não foram incorporadas ao ego em desenvolvimento. Em função disso, os sentimentos associados a essas experiências ficaram fora da percepção do ego e a ação é realizada sem qualquer sentimento consciente. O assassinato a sangue frio é um exemplo.

Esta transformação em atos aparece também no “caráter narcisista” e na “personalidade de fronteira”, com a diferença que no psicopata ela é mais anti-social e de longa duração. Outra característica significativa, tanto no caráter narcisista quanto na personalidade psicopática é uma necessidade de satisfação imediata, uma incapacidade de conter o desejo ou de tolerar frustrações. A personalidade psicopática pode ser um talentoso advogado, executivo ou político brilhante, agressivo, implacável, dotado de uma inteligência fria, incapaz de amar ou ter remorsos, e ironicamente, a explicação para esse tipo de sucesso é exatamente a falta de sentimento.

A “personalidade paranóide”, outro tipo de narcisismo, apresenta uma nítida megalomania. Acredita que todos estão olhando para ela, falando e conspirando contra ela, por ser especial e muito importante. Alguns se sentem possuidores de poderes extraordinários, e a loucura fica clara quando não conseguem mais distinguir a fantasia da realidade. Mesmo quando se chega a esse ponto é possível identificar a maioria dos sinais característicos do narcisismo – grandiosidade extrema, uma acentuada discrepância entre a imagem do ego e o self real, arrogância, insensibilidade aos outros, negação e projeção (Entenda estes dois mecanismos de defesa em artigo a ser postado em breve).

É importante diferenciar os vários tipos de narcisismo, não que isso seja importante para o tratamento, mas porque nos ajuda a compreender melhor o distúrbio. A diferença, em grande parte, é uma questão de grau. Tratar essas pessoas pode ser muito complicado, exatamente pela falta de sentimentos por seus semelhantes que elas costumam apresentar. E não podemos deixar de considerar que, além da falta de interesse pelos outros, os narcisistas são igualmente insensíveis as suas próprias e verdadeiras necessidades, sendo freqüentemente auto destrutivos.

Resumo do livro “Narcisismo – A negação do verdadeiro self”. De Alexander Lowen.