São Paulo,
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Ciúme ou intolerância à rejeição?

Chamar de “ciúme” o sentimento ou emoção que leva um homem ou mulher a matar alguém que foi seu parceiro afetivo e que resolveu exercer o seu direito de terminar a relação, é tentar justificar, explicar e talvez até legitimar um ato de violência e vingança, que não passa de um desfecho trágico de uma doença mental não identificada a tempo e com a qual não se conseguiu lidar. O policial militar que não se conformou com o fim do namoro e matou duas pessoas e feriu três, entre os familiares da moça; o rapaz que estrangulou a adolescente que queria terminar um relacionamento de seis meses; a mulher que teve cenas íntimas com seu ex-marido publicadas por ele na internet depois do rompimento por parte dela. Esses e outros fatos semelhantes, inúmeros ao longo do tempo, nos chocam pela banalidade das mortes e pela inconseqüência de seus desdobramentos. Violenta emoção, traição, ou a alegada incapacidade de viver sem a pessoa, ou na verdade, a incapacidade de viver e lidar com a rejeição. Ciúmes é o medo da perda, e quem tem medo da perda, ou ama ou precisa daquele ser que lhe escapa das mãos. E quem ama ou precisa não destrói, física ou moralmente, a quem ama ou de quem depende. Destrói sim, a quem odeia, por vingança ou crueldade.
Mas estes são casos extremos. A maior parte das pessoas que necessita devolver a ofensa na mesma medida que acredita ter recebido, convive conosco, em relações difíceis e complicadas, sempre “dando o troco” em relação a algo que o tenha ofendido ou ferido, com a esperança de que com isso consiga se livrar da imensa vergonha que sente ao ser preterido, contrariado, tratado com indiferença, submetido às contrariedades e obstáculos normais da convivência com outros seres humanos. Ninguém gosta de ser rejeitado, lá isso é verdade. Precisamos possuir uma dose de amor por nós mesmos para podermos defender nossos interesses e sobreviver neste mundo. Mas ser rejeitado, para quem não estabeleceu um bom vínculo com a mãe na infância e não acredita ser capaz de alterar o mundo através de seu próprio esforço, pode se tornar uma violenta ameaça a sua já tão baixa auto-estima, levando-o a manifestar uma série de comportamentos que caracterizam o chamado narcisismo patológico, ou Transtorno de Personalidade Narcísica.
Desde a infância, essas pessoas têm uma grande dificuldade em lidar com situações que exigem arriscar, ganhar, perder, frustrar e ser frustrado, condições inerentes e fundamentais para o amadurecimento pessoal e social. Um narcisista não aceita jamais a rejeição, porque para ele isso é o mesmo que admitir que seu rígido sistema de defesa, que oculta uma auto-estima extremamente baixa, falhou. Como ele tem uma personalidade desvalorizada, e não se sente digno de receber o amor de ninguém, sofre de ciúmes doentios e muita inveja, que sente, e acredita ser alvo. Essa percepção negativa que têm sobre si mesmos é compensada por uma imagem pública correta, certinha, e rigorosamente ajustada aos valores morais vigentes. Por isso julgam-se mais importantes e mais decentes do que os outros. Fazem certas coisas, não porque tenham refletido e concluído que é assim que deve ser, mas por temerem que sua espontaneidade deixe escapar aquilo que tanto desprezam de negativo em si mesmos. Assim eles controlam de forma rígida o seu comportamento nos meios sociais, fazendo-se bons, bonitos e morais. O problema é que, embora isso aparentemente funcione, o que continua controlando o comportamento do narcisista é exatamente o que eles tanto querem esconder. Como o rígido controle para esconder esse lado negativo leva a perda da espontaneidade e da liberdade, eles se tornam egoístas, autoritários e paranóicos com as pessoas com as quais se relacionam. Para o narcisista, tudo é um reflexo do que ocorre em sua mente doente. Ele se preocupa sempre apenas consigo mesmo; e segundo Theodore A. I. Rubin, eminente psicanalista e escritor, citado por Lowen no livro “Narcisismo – Negação do Verdadeiro Self” – “o narcisista torna-se o seu próprio mundo e acredita que todo mundo é ele.” Dessa forma, ele está sempre atento a qualquer movimento do parceiro que possa significar desvalorização, abandono ou rejeição em relação a ele, porque, pela própria certeza de que será abandonado, ele está sempre na defensiva, de “olho” no outro, sem nunca poder envolver-se completamente com a outra pessoa. Como ele não se envolve, pensa que o outro também não, e dessa forma entra num circulo vicioso de delírios, ficando a espera da rejeição que sente inevitável. E para essas pessoas, tudo o que possa representar rejeição é uma fonte de vergonha e tem que ser eliminada. Tudo que o parceiro faz com ou para outras pessoas faz com que o narcisista se sinta preterido, recebendo menos, lembrando-o continuamente de sua condição de insuficiente diante de seu parceiro. O problema é que o feitiço vira contra o feiticeiro – aquilo que o narcisista tanto tenta evitar acaba ocorrendo, devido aos seus constantes ataques a forma como o parceiro se veste ou se comporta socialmente, desgastando o amor ou os bons sentimentos que porventura tenham sido inicialmente construídos em relação a ele. Os bons sentimentos vão gradualmente sendo substituídos pela aversão, pelo desprazer e pelo desconforto de uma convivência insuportável de desconfianças, com alguém que vê, em cada gesto, um ato deliberado de traição ou um ataque destrutivo. E nada é suficiente para provar a fidelidade ou amizade de quem é vitima das suspeitas do narcisista. Com este comportamento, ele coloca o outro num profundo estado de impotência, semelhante ao dele. Para uma pessoa saudável, é muito difícil suportar tal pressão, e mais cedo ou mais tarde, ela acaba abandonando a relação. E uma rejeição atual, num relacionamento importante para o narcisista acaba remetendo-o a rejeição inicial em sua vida, aquela que causou a própria doença e essa dor tão profunda que ele sofre hoje. A rejeição desperta uma vergonha insuportável, que faz com que o indivíduo tenha um desejo de sumir, desaparecer, morrer, e o conseqüente um ódio mortal por quem ele acredita que o faz sentir-se assim. E o ódio leva ao desejo de retaliação. É nesse momento que o narcisista parte para a vingança, expressando através da agressividade todo o ódio que sente pela ofensa recebida.
O problema não surge repentinamente na vida dessas pessoas e não se evidencia apenas em algumas situações. Antes do possível desfecho trágico, o individuo dá mostras muito claras e precisas de que os mesmos fatores envolvidos nos ciúmes delirantes estão presentes em outras áreas de sua vida. Seria o papel de a família interferir, protegendo e ajudando, oferecendo ajuda profissional; mas acontece que o tipo de família na qual se desenvolve o narcisista é uma família rígida, narcisista ela mesma, e lamentavelmente sempre acha que todo mundo está errado, menos ela. Assim, por causa desse descuido com a sanidade mental, alguns inocentes que nada tem a ver com a situação, pagam altos preços. Esse preço pode ser apenas um período de grande infelicidade e dificuldades de recuperar-se; mas pode ocorrer também que o parceiro pague com a própria vida a imprudência de ter se envolvido com um narcisista patológico.

S.P., Fevereiro 2011

A maior parte das fundamentações deste artigo foram tiradas do texto “Revide Narcísico”, de autoria de Mario Quilici, no link http://br.geocities.com/psipoint/arquivo_narcisismo_revidenarcisisco.htm (lnão mais disponível nesta data)
Lowen, Alexander – “Narcisismo – Negação do Verdadeiro Self” – Edit. Cultrix, 1983 – São Paulo