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A violência no casamento

Em nossa sociedade recebemos a todo instante mensagens de que “violência resolve problemas”, através do noticiário na tv e matérias nos jornais que descrevem com detalhes incidentes violentos de todo tipo e até de desenhos animados infantis, onde as personagens sofrem todo tipo de agressão e voltam inteiros, como se os atos sofridos não tivessem conseqüências.
Através do processo de socialização, os homens são ensinados que “homens de verdade” são fortes e duros; são desencorajados a falar e mais ainda a não encarar seus sentimentos. As mulheres podem expressar sua vulnerabilidade, mas são desencorajadas a demonstrar diretamente a sua raiva. Também, de maneira sutil, a doutrina religiosa reforça a dominação das mulheres pelos homens, enfatizando a superioridade masculina. Até bem pouco tempo as leis familiares permitiam ao marido bater na mulher caso achassem necessário, tratando-as como objetos de sua propriedade. Muitas pessoas que trabalham com aplicação das leis não reconhecem como crimes o uso abusivo de força entre cônjuges ou o estupro marital. E um sistema econômico que paga menos as mulheres pelo mesmo trabalho que os homens, certamente as mantêm dependentes financeiramente de seus maridos. Assim, em qualquer interação mediada pela violência, provavelmente mais mulheres serão as vitimas e homens, os agressores. Mas os homens não estão livres de serem também agredidos, embora na maioria das vezes não o sejam diretamente devido a maior força física: tais atos podem ser praticados por parentes da esposa ou profissionais contratados. Podem ocorrer também agressões onde a mulher se aproveita de um momento de vulnerabilidade, durante o sono por exemplo. Um tipo de agressão muito comum, praticada em geral por mulheres de personalidade histérica, é a agressão psicológica, que tem como objetivo mobilizar o outro através de doenças, dores e problemas de saúde para obter atenção, cuidado e tolerância. Outro tipo de agressão possível pela mulher, porém não exclusiva dela, é a agressão verbal, que se utiliza da palavra para depreciar a família, o trabalho e até mesmo o corpo do outro, com o intuito de diminuí-lo e humilhá-lo.
Mas, em função da maior incidência de violência no relacionamento conjugal estar contra a mulher, vamos nos ater a ela.
Muitos dos fatores examinados no início deste artigo, que em geral não são questionados, contribuem para outorgar a um dos sexos poder sobre o outro, abrindo a brecha para o abuso.
Podemos chamar de “abuso” todo episódio em que alguém é induzido a agir, através de violência, ameaças ou intimidação, de uma forma que não agiria normalmente se pudesse escolher. Espancamentos freqüentes, tapas eventuais, sacudidas ou mesmo apenas ameaças, são abuso.
Quando se perde o controle emocional em função da raiva, é fácil ocorrer violência e maus-tratos dentro de um lar e de um relacionamento.
Um modelo bastante elucidativo explica o padrão do abuso através das fases em que se processa o ciclo da violência:
Como uma predisposição básica para o abuso e o espancamento, os parceiros são mutuamente dependentes e costumam contar apenas um com o outro para satisfazerem suas necessidades tanto emocionais como as de manutenção. Sem outras fontes de gratificação, ter uma necessidade frustrada pelo parceiro assume uma dimensão acima do normal. Um atraso na elaboração do jantar ou uma camisa não ter sido passada, pode levar cada um dos parceiros a tentar fazer o outro atender a sua necessidade através da coerção. Quando o agressor acredita que não tem alternativa a não ser dar vazão a sua raiva e frustração através da violência, a vítima pode ser empurrada, agarrada, contida, estapeada, sacudida, chutada, mordida, esganada, socada, atingida com algum objeto, ameaçada ou atacada com faca ou arma. Esse ato de abuso acaba por eliminar de forma imediata a fonte do estresse do atacante, independente de qual tenha sido ela e assim a violência é reforçada como uma maneira eficaz de lidar com a frustração e a dor. Depois do episódio de violência vem o arrependimento. Os dois ficam chocados com o que aconteceu, o agressor jura que não acontecerá mais e tenta provar o seu amor e devoção. Para a vitima, este pode ser o único momento em que ela sente o parceiro próximo, afetuoso e amoroso, além de ter em suas mãos temporariamente o poder dentro da relação. Essa fase de lua-de-mel pode reforçar o ciclo de violência. Depois de repetidos episódios de espancamento, o padrão costuma ser abreviado: os ciclos que se completam mais depressa e se resumem ao acúmulo do estresse e ao ataque.
Um fator de peso na ocorrência de episódios de violência doméstica entre adultos, é o abuso que cada cônjuge pode ter sofrido na infância, em sua família de origem.
A maioria das crianças vitimas de abuso acredita que merece o que lhes acontece e se vêm como uma pessoa sem valor. Esses sentimentos de menos-valia contribuem para uma baixa auto-estima e uma grande dependência de valorização por parte de terceiros, o que acaba acarretando uma intensa vulnerabilidade à frustração e as críticas. Se ela assistiu a seus pais atuarem dentro de um relacionamento violento e abusivo, pode ter assimilado esse modelo como padrão para seus próprios relacionamentos futuros. Como um menino, ele pode ter aprendido a expressar a raiva com eficiência através da violência, e dessa forma influenciar e controlar os outros. Como menina, ela pode ter aprendido que seu papel na vida é sujeitar-se a essas demonstrações de violência.
Independente de idade, raça, religião, status socioeconômico, educação e profissão, em sua grande maioria, espancadores são homens que não se sentem bem consigo mesmos, acreditam que não têm valor, e buscam constantemente a aprovação dos outros. Têm idéias tradicionais em relação aos papeis sexuais e dependem da parceira para quase tudo a que se refere a apoio e satisfação emocional. Por acreditarem que não têm valor, suspeitam que os outros pensam o mesmo, e facilmente interpretam gestos e palavras que não compreendam claramente como prova de rejeição. Como têm dificuldade em expressar sentimentos de mágoa e desapontamento, reagem com raiva e violência, o que acaba aumentando a sensação negativa a seu próprio respeito, alimentando o ciclo. Sua dificuldade em se colocar no lugar do outro o impede de perceber o sofrimento e o medo que provoca na esposa, dando rédea solta as explosões de violência.
Se o marido depende da parceira para receber todo o alimento emocional que necessita, sente verdadeiro pavor de que ela o abandone por outro, afinal, ela pode perceber quão sem valor ele é. Assim, subjacente ao medo de ser abandonado, coexiste o ciúme, que acaba despertando suspeitas irracionais, questionamentos e acusações. Terceiros são vistos como ameaça ao relacionamento e ao seu controle. Ele pode proibi-la de sair sem ele, de exercitar-se, de encontrar suas amigas, de ir ao supermercado, de levar os filhos a escola. Pode restringir o dinheiro e proibi-la de usar o telefone, mesmo que para falar com familiares e amigos. Pode chegar até a violar a correspondência dela. Esse ciúme, que agora pode ser visto como patológico, pode levar a violência sexual – é freqüente o estupro nos relacionamentos em que a esposa é espancada. Gradativamente o casal vai se isolando cada vez mais, aumentando consequentemente a dependência mútua para a satisfação das necessidades emocionais e práticas. Uma dependência deste nível pode diminuir as opções nos recursos disponíveis para a realização das atividades diárias, trazendo mais estresse para o relacionamento. E quanto mais estresse, maiores as possibilidades de conflito e violência.
O agressor adota o estereótipo social do que é ser homem, que inclui controlar a esposa e não ser manipulado. Como não consegue corresponder a todos os seus padrões, sua auto-estima é abalada continuamente e o resultado é um acúmulo de ressentimentos e uma tendência cada vez maior de satisfazer suas necessidades através da violência. Usando a violência para controlar e incapacitar a parceira, ele se sente mais poderoso e menos ameaçado pela possibilidade dela o deixar. Assim a violência é reforçada positivamente.
Segundo pesquisas, drogas e álcool estão presentes em pelo menos 80% dos casos de violência. O álcool desinibe e drogas pesadas, como a cocaína cria um quadro de paranóia (ilusão de perseguição ou delírio de ser traído) aumentando assim a possibilidade de violência. Apesar de alguns homens atribuírem seus atos violentos ao descontrole por estarem sob o efeito de drogas ou álcool, na maioria das vezes, eles já vinham praticando abusos antes dessas substâncias se tornarem um problema. E como os pontos agredidos na mulher geralmente estão ocultos – seios, estomago, base da coluna e partes da cabeça cobertos pelo cabelo – aparentemente ele sabe o que está fazendo. Ferir apenas onde o machucado não fica visível exige um considerável controle.
Pelo fato de serem treinados para usar a violência e técnicas de combate, e terem esses recursos acessíveis cotidianamente, os militares tem esses fatores como agravantes em relação a violência domestica. Além disso, estão submetidos a outros fatores de estresse: o trabalho é duro, mal pago, envolvendo experiências humilhantes ou que causam um sentimento de impotência. Tudo isso pode aumentar a necessidade de se sentir no controle, pelo menos em casa. Para a maioria deles, o homem tem de manter o seu papel tradicional – ser forte, competente e manter o comando. Quando os homens estão em missão, as famílias podem passar por longos períodos de separação, dificultando o relacionamento conjugal e parental devido à ausência de um contato regular. E para agravar, o padrão de mudanças constantes de um posto para outro dificulta a criação de laços de amizade para toda a família, intensificando o isolamento, que é um dos fatores mais importantes para a existência da violência física nos lares. Não é de se espantar que, na ocorrência de um conflito em casa, eles facilmente se tornem violentos.
Na maioria dos casos de abuso os episódios de violência são seguidos de remorsos e promessas de não se repetir. Mas às vezes, a violência é tão compensadora que se torna uma forma habitual de se conseguir o que se quer. Aí não se trata mais de perda de controle num surto de raiva, mas sim uma maneira calculada de se obter o que se quer. É a chamada “agressão instrumental”, na qual a violência é usada como meio de se obter a recompensa. É um dos tipos mais assustadores e perigosos de abuso: o agressor não demonstra emoção alguma durante o episódio de violência, nem remorsos depois. Ele pode espancar diariamente a esposa sem nenhum motivo aparente, e sem parecer estar reagindo à raiva ou à cólera. Dificilmente ele pára de bater, mesmo que se coloque em tratamento, pois usa esse método como uma tática útil para obter a satisfação de suas necessidades.
Para algumas pessoas a mulher que sofre violência em casa é passiva, cordata e manipuladora; e muitas vezes, ela é que leva o homem a se tornar violento.
Não é tanto vítima, mas masoquista, visto que permanece em uma relação em que é espancada com freqüência. Na verdade, a mulher volta para a relação violenta, mesmo depois de um período em abrigos para mulheres espancadas, porque freqüentemente depende financeiramente do marido, não tem treinamento profissional e é incapaz de sustentar-se e aos filhos. É comum que ele a ameace de morte se ela o deixar. Acata o papel feminino, passivo e obediente, porque assim ela evita provocar a cólera dele. Diante de um homem potencialmente violento e enraivecido, a tendência dessa mulher é tentar acalmar sua raiva. Com o tempo, esse comportamento torna-se uma resposta automática diante de qualquer demonstração de raiva – seja de quem for. Da mesma maneira ela pode aparentemente acatar as exigências do marido e indiretamente sabotá-lo. Esse comportamento, embora possa se classificado como manipulador ou passivo-agressivo, tem a função de suprir algumas necessidades importantes e protege-la de mais abuso.
O impacto que o abuso exerce sobre a auto-estima da mulher é devastador. Quando ela percebe que perdeu sua capacidade de se proteger, passa a ficar atenta a qualquer sinal de raiva ou eminência de surra por parte do marido. Não confia mais nas suas próprias percepções – como não percebeu que esse homem era capaz de violência? Se não era, algo nela a provoca, ou pior, merece a violência? Por tentar e nunca conseguir evitar a violência, acredita que é incapaz de mudar qualquer coisa e pára de tentar. Racionaliza, diminuindo a importância do abuso, o que ajuda a reduzir o medo a níveis toleráveis. Esconde os seus sentimentos até de si mesma. As vezes ela fala sobre os abusos com uma amiga, com o pastor ou com o médico, mas em geral a reação dessas pessoas é minimizar ou não levá-la a sério. Esse tipo de reação invalida a vivência dessa mulher, e ao mesmo tempo reforça sua negação do que de fato acontece. Além disso, nas fases de abuso ela pode ser constantemente menosprezada pelo marido, sofrendo o que chamamos acima de “abuso verbal” – ele pode culpá-la, dizendo-lhe que se ela fosse melhor cozinheira, melhor mãe, melhor dona de casa ou amante, o abuso não teria ocorrido. Não se espanta se após algum tempo muitas fiquem profundamente deprimidas sob uma fachada de alegria, com sintomas como dores nas costas, dores de cabeça, problemas de menstruação e falta de energia.
Nenhuma violência é justificável – sempre existem alternativas. Um homem escolher a violência para dar vazão a sua fúria é apenas isso – uma escolha. Mesmo que acredite que não possui outros recursos, ele é responsável pelo abuso. Mas ambos são responsáveis pelo estresse e pelo conflito existentes na relação. Assim, é possível mudar essa relação permeada pela violência, desde que a história de violência no relacionamento seja recente e a freqüência dos espancamentos pequena; que haja motivação para a mudança – que o agressor reconheça que tem um problema e esteja disposto a se tratar com profissionais especializados e sinta remorsos depois de cada episódio, sinal de que não está se utilizando da agressão instrumental. E a mulher também se disponha a aprender novas maneiras de lidar com conflitos.
São Paulo, 03 de março de 2006

Referências:

Paleg, K. “Maus tratos entre cônjuges”. Em Mckay, Matthew.(org.) Quando a raiva dói – Acalmando a tempestade interior. São Paulo: Summus Editorial, 2001, pgs 296/310.

Ballone, G.J., Ortolani IV. “Violência Doméstica”. Psiqweb.Internet, revisto em 2005: www.psiqweb.med.br

Cavalcante, A.M. O Ciúme Patológico. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 1997.