São Paulo,
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A atrasada crônica – Mecanismos de defesa psicológica: Negação e Projeção

Ela chega atrasada aos seus compromissos nove entre dez vezes – em média 45 minutos – chegando a inviabilizar qualquer coisa que se tenha planejado fazer que dependa de terceiros ou de horários, como uma sessão de cinema ou reunião de trabalho. É de testar a paciência de qualquer um. Ao invés de se irritar, a amiga resolveu se adaptar: começou a incluir no horário combinado o atraso habitual e a se programar para chegar ao local marcado para o encontro no horário “real”. Logo essa atitude se revelou um erro: um dia ela chegou um pouco antes e não teve nenhum constrangimento em expressar sua irritação por ter que esperar. Na vez seguinte, ela fez questão de acertar os relógios e fixar o horário exato, pois não queria ficar esperando (não havia gostado da experiência…). A amiga chegou 5 minutos antes e… pasmem! Ela chegou 45 minutos mais tarde, como de hábito. Mudando de estratégia, a amiga decidiu dizer a ela como se sentia em relação a esses atrasos. E ao invés de ela admitir seu (mau) hábito e pedir desculpas, teve uma crise de raiva e acusou a amiga de ser “desagradável” e “intolerante” por não compreender as dificuldades que ela tinha por depender de condução pública, que o trânsito estava terrível, etc… e que ela, a amiga, é que precisava “mudar” seu comportamento. Invertendo os papéis e tornando-se ela a vítima de “injustiça”, despejou na amiga todo o seu desagrado pelo seu próprio comportamento, sem reconhecê-lo. Se “os outros” são os responsáveis pelo nosso mal estar, não precisamos mudar, os outros é que têm de fazê-lo.

O que são defesas psicológicas

Ao longo de nosso desenvolvimento, aprendemos várias técnicas através das quais nos defendemos, conciliamos sentimentos conflitantes, lidamos com nossa agressividade, ressentimentos, frustrações e aliviamos nossa ansiedade. São mecanismos internos, escolhidos inconscientemente e operados automaticamente. Estes mecanismos não são ruins – sem eles viveríamos em eterna angústia e sofrimento. O problema está na proporção em que esses eles atuam, distorcendo nossa personalidade, dominando nosso comportamento à nossa revelia, e perturbando nosso relacionamento com as demais pessoas.
Quando a pessoa do relato acima transforma o atraso eventual da amiga em algo que ela não tolera porque não consegue lidar, e a observação sobre seus atrasos em falta de consideração por parte da outra pessoa, ela está usando uma defesa contra a sua própria angústia, despejando na amiga toda a sua irritação pelo comportamento que rejeita em si mesma, atribuindo a outrem traços de caráter e atitudes dela mesma, contra as quais tem criticas e objeções.
Nós nos defrontamos a todo momento com pessoas que criticam severamente em outras as falhas que constituem exatamente os pontos fracos de seu próprio caráter, deixando intimamente de reconhecer o fato de que elas próprias possuem os traços e os motivos desprezados. Através de um mecanismo de defesa psicológico chamado projeção, as tendências repudiadas encontram uma “saída honrosa” por assim dizer, e os sentimentos de culpa podem ser aliviados, passando o seu portador por inocente e até por vitima. Para projetar em alguém os pensamentos, desejos, fatos e dúvidas conscientemente intoleráveis é preciso negar a existência deles em si mesmo, através de um mecanismo protetor de “não percepção”, e a realidade encarada como não existente ou transformada de maneira a não parecer mais desagradável ou penosa. Por isso os dois mecanismos – a negação e a projeção – estão intimamente ligados.

Por que isso acontece?

Podem ser inúmeras as razões existentes por trás dos atrasos sistemáticos de nossa personagem aos seus compromissos: incapacidade de dizer “não”, assumindo mais compromissos do que lhe é possível cumprir; necessidade de controle – chegando depois ela garante que o outro estará lá, a sua espera, e a ansiedade do abandono é aliviada; a fantasia infantil de que o mundo se adaptará a suas necessidades tal qual quando era bebê, diminuindo o trânsito para que ela possa se deslocar no seu tempo e atrasando o relógio de maneira que os eventos ocorram apenas quando ela conseguir chegar; tornando as pessoas tolerantes e condescendentes em relação ao seu comportamento e até a crença de que se ela continuar insistindo em se preparar para seus compromissos sem considerar o trânsito, os imprevistos, etc., um dia o resultado poderá ser diferente. O que eventualmente, ao acaso, pode até acontecer.
Mas, independente das razões, se ela não se conscientizar e aceitar que emite tal comportamento, nada mudará: só podemos transformar algo do qual temos consciência e sabemos como se opera. Quando começar a perder oportunidades de trabalho e a companhia de amigos é que ela se dará conta de que algo está perturbando e atrapalhando o fluir de sua vida, e precisará de um “espelho” que lhe permita “ver” como ela é realmente vista e percebida pelos demais.
Embora popularmente se acredite que as pessoas possam mudar se fizerem um “esforço”, isso pouco vale quando se trata de questões emocionais, porque a tendência de nosso inconsciente é preservar nosso self da destruição, real ou imaginária, provocada pela vergonha da exposição ou admissão de comportamentos e coisas que entram em discordância com a imagem que temos de nós mesmos. Admitir nossas falhas é muitas vezes sentido como uma humilhação; é aceitar que não somos perfeitos, que falhamos na construção de nós mesmos.
Self é um conceito em psicologia que significa nosso eu, nossa individualidade como um todo. A janela de Johari (uma fusão dos nomes de seus dois criadores – Joe Luft e Harry Ingram) é um paradigma de personalidade usado para treinamento de lideres e membros de grupos e pode ser usada em psicoterapia. Ela tem quatro quadrantes: 1) o que é conhecido por mim e pelos outros (o self público); 2) o que é desconhecido pelo self e conhecido pelos outros (o self cego); 3) o que é conhecido pelo self e desconhecido pelos outros (é o self secreto) e 4) desconhecido pelo self e pelos outros (é o self inconsciente).
Esses quadrantes variam na forma como se apresentam em relação a cada indivíduo, menores em uns, maiores em outros. A psicoterapia tem o papel de alterar o tamanho desses quadrantes, ajudando o self público a crescer e o secreto a diminuir, mas é o self cego o principal alvo, a fim de aumentar a capacidade dos indivíduos para testarem a realidade e a se verem como os outros os vêem, e se tornarem melhores testemunhas de seu próprio comportamento e aprenderem a apreciar o impacto de seu comportamento sobre os sentimentos dos outros. E um dia, quem sabe? Viver melhor consigo mesmo e com os demais.

Ref.: “Os desafios da Terapia – Reflexões para pacientes e terapeutas” – Irvin D.Yalom- 2002 – Ediouro Publicações.

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